•O Modernismo português iniciou-se num período em que o país estava em processo de compreensão de sua nova identidade.
•É uma corrente literária de influência italiana que anexou alguns componentes da literatura brasileira. Na poesia, na prosa, assume uma dimensão de intervenção social, firmada pelo pós-guerra e pela sedução dos sistemas socialistas.
•Sua matriz poética concentra-se no grupo do Novo Cancioneiro, coleção de poesia, com Sidónio Muralha, João José Cochofel, Carlos de Oliveira, Manuel da Fonseca, Mário Dionísio, Fernando Namora e outros.
•No romance, Soeiro Pereira Gomes, com Esteiros, e Alves Redol, com Gaibéus, de 1940, inauguraram, na ficção, uma obra extensa e representativa.
•Influências Norte-Americanas (Steinbeck, Hemingway e John dos Passos), francesas (o Existencialismo e o "novo romance") e brasileiras (José Lins, Graciliano Ramos, Érico Veríssimo e Jorge Amado).
Neo Realismo
Se o Neo Realismo optou pela ficção, tanto no Brasil quanto em Portugal, foi devido principalmente aos governos ditatoriais, quais sejam o Estado Novo de
Getúlio Vargas no Brasil e o Salazarismo em Portugal.
O Neo Realismo, corrente artística do século XX, de caráter ideológico de esquerda, faz parte do 3º período do Modernismo. Tem como principal característica a denúncia social, a busca e a conscientização do homem frente a realidade moral e social. Tenta chamar a atenção do leitor para a realidade, com uma literatura ativa voltada para questões vivenciadas no cotidiano, bem como o regionalismo, a seca e o pobre na sociedade.
Inspirados pelo socialismo marxista, jovens estudantes de Coimbra adotam o cambativismo da Geração de 70. Surge então os primeiros cultores do Neo-realismo ou realismo social. Uma ruptura com o individualismo e intelectualismo psicológico do movimento ‘Presença’ aliado à descoberta da ficção norte-americana e brasileira de 1930.
Ferreira de Castro, nos seus romances Emigrantes e A Selva, introduz a análise de problemas de natureza social, trata as populações que emigram, que se empregam e desempregam assim como Alves Redol, Manuel da Fonseca, Álvaro Cunhal, Mário Dionísio, José Gomes Ferreira, entre outros, tratam os problemas, as tristezas e as misérias do povo esmagado pela ganância de uma minoria de representantes do capital.
Na Literatura, o Neo-realismo tanto em Portugal quanto no Brasil, são semelhantes no resgate de valores do Realismo e do Naturalismo do fim do século XX, mantendo ainda, o determinismo social e psicológico do Naturalismo. Entretanto, enquanto no Naturalismo as mazelas da sociedade eram expostas pelos romancistas com algum pessimismo, sem perspectiva de solução, os escritores neo-realistas são sobretudo ativistas políticos, leitores de Marx, da prosa revolucionária de Górki e tomam posição na chamada luta de classe, denunciando a desigualdade social e os desmandos das elites em relação aos trabalhadores. Já na ficção, os escritores norte-americanos e os brasileiros assemelham-se, grosso modo, nas novidades introduzidas: a objetividade e simpatia por tudo que determina propósito de reconstrução social, com o desejo de fazer literatura não com heróis pré-fabricados, mas, com homens humildes, injustiçados, tentando dessa forma, uma estruturação cinematográfica do romance.
As primeiras manifestações direta e indiretamente antipresencista surgem no jornal “O Diabo”, iniciado em 02 de junho de 1934. Ferreira de Castro escreve no número 10 publicado em 02 de setembro de 1934, acerca da literatura social brasileira, logo sendo seguido por outros colaboradores que defendem os mesmos propósitos.
Em 1938, Joaquim Namorado estampa um artigo com o título Neo Realismo, logo, diversos seguidores seguem dentro do mesmo propósito em virtude de uma nova corrente literária. Entre eles, Alves Redol, com a publicação do conto “Lua de Pé” (26 de agosto de 1939), obra já de caráter neo-realista. Em outubro do mesmo ano, Antonio Ramos de Almeida publica novos artigos sobre o movimento.
A ficção neo-realista e a Pós Modernista, são influenciadas pelo Modernismo, especialmente a liberdade linguística e o intimismo freudiano. (mais fortes no segundo momento do Neo-realismo).
No romance de 1930, além de Alves Redol, destacam-se também, Soeiro Pereira Gomes, Manoel da Fonseca e José Ernesto de Souza, formando um grupo dos mais importantes nomes que marcaram o movimento Neo Realista em Portugal.
Segundo Antonio José Saraiva, um dos principais críticos do movimento neo-realista, resume-se em três o seu aspecto fundamental: uma visão mais completa e integrada dos homens, a consciência do dinamismo da realidade e a identificação do escritor com as forças transformadoras do mundo.
Lima de Freitas
(1927-1998), pintor, desenhista e escritor do
neo-realismo português.
Características do romance neo-realista português
ÆA ação do romance é aberta, com acumulação de fatos ligados entre si pelo narrador e pela homogeneidade de situações muitas vezes encaradas como símbolos. A princípio, muitas obras neo-realistas nem sequer conseguiam ultrapassar um vulgar nível panfletário.
ÆPersonagens quase sempre coletivas, representantes do capital e trabalhadores. A estreita localização destes grupos trouxe uma característica que o não abona: o regionalismo alentejano.
ÆAs personagens não são psicologicamente estudadas; se há um protagonista, é por ser o mais atingido entre a multidão ou por refletir as reações do todo.
ÆProtagonistas colocados no ambiente próprio. Há presença ainda do subjetivismo, pois não se limitam a recriar a realidade: orientam-na para transformações profundas com que sonham e em que estão empenhados.
ÆMinimizam o cuidado da forma (que julgam encobrir a verdade do romance). Foi neste sentido que a polêmica com os presencistas orientou inicialmente a estética da escola.
ÆO autor neo-realista gosta de pôr na boca das personagens a linguagem popular regional, como se a tivesse gravado do natural em fita magnética e a repetisse.
Surrealismo
Um relógio que derrete, um peixe com corpo de mulher. Esquisitices assim só podem ser vistas em sonho, já que estão acima da realidade - ou, em francês, "sur le réel", daí o termo surrealismo", escola artística que tem esses delírios como tema.
Foi o escritor André Breton (1896-1966) o primeiro a utilizar o termo, ao publicar o "Manifesto Surrealista", em 1924. Os artistas deste movimento acreditavam que a arte deveria se libertar das exigências da lógica e da razão e ir além da consciência do dia-a-dia, para poder expressar o inconsciente, a imaginação e os sonhos.
Baseavam-se também nos estudos de Sigmund Freud (1856-1939), considerado o pai da psicanálise. Em sua obra mais conhecida, "A Interpretação dos Sonhos", Freud descreve o funcionamento do inconsciente e a forma como ele aflora nos sonhos.
Em algumas obras surrealistas podem-se ver influências do dadaísmo, do cubismo, do abstracionismo e do expressionismo, que eram movimentos artísticos contemporâneos.
A diferença em relação a esses movimentos está nas figuras representadas. O surrealismo prefere imagens de um universo onírico, isto é, o mundo dos sonhos e à imaginação.
O único manuscrito completo conservado do “Manifesto do Surrealismo” (1924), de André Breton, foi leiloado no dia 21 de maio de 2008, em Paris, como parte de um lote com nove peças únicas do poeta, que superou o valor de 5,4 milhões de dólares.
Findada a Segunda Guerra Mundial, ainda no clima neo-realista, começa a formar-se grupo de individualismo ou dissidências que não mais queriam as fórmulas em vigor. Esse vanguardismo já vinha se manifestando desde 1935 com Antônio Pedro e sua teoria do Dimensionismo e com Antônio Dacosta e sua pintura caracterizada pela liberdade surrealista.
Corria o ano de 1947, quando Cândido da Costa Pinto cria em Lisboa o Grupo Surrealista. Movimento composto também pelos escritores: Marcelino Vespeira, Fernando Azevedo, Antônio Domingues, Alexandre O’Neill, José-Augusto França, Antônio Pedro, Moniz Barreto e Mário Cesariny de Vasconcelos. A primeira manifestação constituiu-se de uma homenagem a Gomes Leal por ocasião de seu centenário, intitulada Só Gomes Leal / O Mago Lesel / O Poro da Noite, publicada em 4 de agosto de 1948.
No ano seguinte, integram o movimento: Pedro Oom, Risques Pereira, Antônio Maria Lisboa. Em setembro deste ano, Mário Cesariny de Vasconcelos se desliga da agremiação por julgá-la “nem grupo nem surrealista”, e organiza com Oom, Pereira e Lisboa, o grupo dos Surrealistas Dissidentes.
Em 1949, o Grupo Surrealista de Lisboa realiza uma exposição de arte que escandalizou o público. Expuseram: Alexandre O’Neill, Antônio Dacosta, Antônio Pedro, Fernando Azevedo, João Moniz Pereira, José-Augusto França e Marcelino Vespeira. Neste mesmo ano, a 6 de maio, os Surrealistas Dissidentes lançam sua primeira comunicação com o titulo: A Afixação Proibida, esta, que só vem a público em 1953, é assinada por Pedro Oom, Henrique Risques Pereira, Antônio Maria Lisboa e Mário Cesariny de Vasconcelos.
Realizam ainda uma exposição em julho e o lançamento de um comunicado contra Antônio Pedro e José-Augusto França em novembro intitulado de A desavença Surrealista, subscrito por Mário-Henrique Leiria, Mário Cesariny de Vasconcelos, João Artur Silva, Artur Cruzeiro Seixas e Carlos Eurico da Costa. Há ainda uma polemica em torno da questão surrealista envolvendo João Gaspar Simões, Alexandre O’Neill, José-Augusto França, Mário Cesariny de Vasconcelos e Pedro Oom, membros das duas facções.
Mário-Henrique Leiria em 1952, elabora trecho do Manifesto Coletivo dos Surrealistas Dissidentes, oculto até sua inclusão na serie Os Modernistas Portugueses, compilada por Petrus. Já Antônio Maria Lisboa publica Erro Próprio, conferencia-manifesto proferida em 1950.
Passando para a década de 60: propostas apresentadas pela “poesia experimental”, surgimento de uma nova geração de neo-realistas, o movimento torna a chamar a atenção devido a três empreendimentos editoriais de Mário Cesariny de Vasconcelos: a Antologia do Cadáver Esquisito (1961), Surreal / Abjeccionismo (1963), coletânea com obras de vários adeptos, A Intervenção Surrealista (1966). Por fim, o aparecimento de um renovado Surrealismo / Abjeccionismo lisboeta, na Antologia Grifo (1970), atingindo uma ação social e política subversiva.
Entendiam que a Arte deveria buscar o que paira além e acima da realidade. Queriam a recolocação do “eu profundo” do artista em detrimento das questões sociais, que descobrisse as verdades oníricas, os segredos do inconsciente individual, ou seja, expressar de todas as formas o funcionamento do pensamento com exclusão de todo controle exercido pela razão e sem preocupações estéticas e morais.
Apesar da pouca duração, a influência do surrealismo português pode ser divisada até hoje, não só pela agitação crítica que estimulou mas também pelos caminhos estéticos que abriu. E, dentre seus participantes sobressaem: Antônio Pedro, Mário Cesariny de Vasconcelos, Antônio Maria Lisboa e Alexandre O’Neill.
A estética surrealista atraiu escritores como Manuel de Lima (1918-1976), autor de muitas obras como o romance Um Homem de Barbas (1944), A Teoria do Chapéu (1952), peça de teatro ainda inédita, escrita em parceria com Natália Correia (1923), autora de Rio de Nuvens (1947), e muitos outros autores como: Virgilio Martinho (1928), Raul de Carvalho (1920-1984), Mário-Henrique Leiria (1932-1980), José Viale Moutinho (1945), Luiz Pacheco (1926), Jorge de Sena e Ruben A., circunstanciados em outro lugar.
Movimento ideológico mais importante do século XX. A complexidade de suas ideias e expressões nos seus aspectos políticos, revolucionários e éticos, sua oposição a opressão e ao obscurantismo, assim como a sua defesa dos valores da liberdade, são na maioria dos casos os menos conhecidos.
“Em matéria de revolução, nenhum de vós precisa de antepassados.” André Breton, Manifesto do Surrealismo.
António Ramos Rosa, poeta ensaísta português. Nos anos cinquenta, um dos diretores das revistas Árvore, Cassiopeia e Cadernos do Meio-Dia. Colaborou ainda com textos de crítica literária na Seara Nova e na Colóquio Letras, entre outras publicações periódicas.
TENDÊNCIAS CONTEMPORÂNEAS
Examinando a Literatura Portuguesa das ultimas décadas e a formação de diversos grupos de escritores, cabe ressaltar aqueles que, mesmo não pertencente a nenhum grupo, apresentam características neo-realistas e surrealistas ou ainda, sofreram influências das linhas de vanguarda dos anos 60 e do clima posterior à revolução de 1974 que deu fim ao regime salazarista. O panorama literário de Portugal pode ser divisado em três áreas: poesia, prosa de ficção e o teatro.
Na poesia nota-se grande movimento de Revistas, envolvendo notáveis expoentes líricos dos últimos anos. Este é o caso da revista Cadernos de Poesia (1940 e 1942), que funcionou como ponte entre a Presença e a modernidade, comandada por Tomaz Kim, José Blanc (de Portugal) e Rui Cinatti.
Após aparente dormência, em 1950, inicia-se ampla circulação de periódicos divulgando e defendendo a Poesia. As revistas: Momento, Citara e Távola Redonda (de circulação até 1954), propunham-se a uma “revalorização do lirismo como primeiro estádio da criação poética”.
Dentre seus dirigentes alguns nomes de destaque como: David Mourão-Ferreira, Antônio Manuel Couto Viana, Fernanda Botelho entre outros.
Em 1951, com o mesmo propósito reformador, surgem outros periódicos, a segunda e terceira (1952-1953) séries de Cadernos de Poesia a qual juntam-se aos primeiros organizadores: Alberto de Lacerda, Alexandre O’Neill e outros. Neste mesmo ano, mais alguns escritores como Antônio Luis Moira, Antonio Ramos Rosa principiam a Árvore e Antônio José Maldonado, Fernando Guimarães e Jorge Nemésio, principiam Eros. E muitas outras mais como a Serpente (1951), Sisifo (1951-1952), Notícias do Bloqueio (1957-1961), etc.
Com esse movimento de revistas, sobretudo na poesia, vislumbra-se a nova fase do Modernismo com destaque para Fernando Pessoa (nomeadamente o maior poeta português do século XX, com produção diversificada, marcada por seus “outros Eus”, é de suma importância para a poesia portuguesa).
Corria o ano de 1961 quando irrompe o movimento Poesia 61 que de certa forma - estimulado por concretistas brasileiros - era composto por vanguardistas inconformados em busca de novas técnicas e soluções poéticas.
Este Experimentalismo solidificou-se no Caderno de Poesia, Poesia Experimental 1 (1964) e Poesia Experimental 2 (1966), atingindo escritores como Casimiro de Brito, Herberto Helder entre outros.
Vale ressaltar, Antônio Ramos Rosa (1924), critico de poesia e teórico, de suma importância na poesia experimental. Sua obra, marcada pela obsessão pela palavra o fez notório levando consigo a tutela pelo degelo do Neo-Realismo e do Humanismo Diamático da década anterior.
Nos anos 60 uma nova onda neo-realista é proferida entre 1962 e 1966 por meio de três volumes coletivos: Poemas Livres, com Manuel Alegre, Fernando Assis Pacheco e outros. É claro que muitos outros poetas como Natércia Freire, João Rui de Souza Ruy Belo, etc merecem referência, no entanto, o destaque maior é para José Gomes Ferreira, Jorge de Sena, Sofia de Melo Breyner, Eugênio de Andrade, Herberto Helder e David Mourão-Ferreira.
Devido ao grande número de poetas, escritores e obras merecedoras de notação, na seção “Para saber mais” e no vídeo intitulado ‘Principais Autores’, encontra-se disponível relação de sites e informações que complementam este estudo com dados sobre a vida e obra de cada autor.
Vamos ver o que aprendemos até agora? 1. "Eu, filho do carbono e do amoníaco, Monstro de escuridão e rutilância, Sofro, desde a epigência da infância, A influência má dos signos do zodíaco." a) Simbolismo b) Parnasianismo c) Modernismo d) Pré-Modernismo 2. "Quando em meu peito rebentar-se a fibra, Que o espírito enlaça à dor vivente, Não derramem por mim nem uma lágrima Em pálpebra demente." a) Romantismo b) Realismo c) Modernismo d) Classicismo 3. "Casas embandeiradas De janelas De Lisboa Terremoto azul Fixado. a) Arcadismo b) Romantismo c) Parnasianismo d) Modernismo
A Revolução de 25 de abril de 1974 dá fim a um governo discricionário no poder desde os anos 20, provoca espanto e perplexidade. No plano literário, manifestou-se por uma paralisia resultado de euforia e duvidas ante o desconhecido. Refeitos e motivados pela liberdade, escritores encetam um período de grande atividade. Os já consagrados, prosseguiam com seu itinerário, os escritores oriundos (ou não), da nova conjuntura, instigadora da criação literária, eram aplaudidos pela critica e leitores pela qualidade de seus textos, principalmente na poesia.
Na década de 70, ocorre a ressurgência da vertente surrealista, em combinação com o que se chamou de Abjecionismo. Configuram-se assim novos valores poéticos. Dentre muitos, os escritores mais relevantes são: Vasco Graça Moura, João Miguel Fernandes Jorge, Antônio Franco Alexandre, Antônio Osório, Nuno Júdice, José Carlos Ary dos Santos e outros. Após 25 de abril, a poesia liberta-se e, antes o que demandava cuidado ao se escrever como: erotismo, escatologia etc agora poderia ser escrita ser qualquer inibição. Há ainda um maior empenho político e social, poetas de multiplicam em intervenções políticas e se preocupam em por a literatura a serviço do povo.
Após toda essa exaltação, se na poesia não houve grandes revelações, ocorre o oposto na prosa de ficção tanto pela quantidade quanto pela qualidade das obras e autores. Livres de alinhamentos automáticos, os novos prosadores reconquistam o direito a individualidade, desembaraçam-se também no plano da construção romanesca e da linguagem. A estrutura ficcional rompe os laços com a verossimilhança fotográfica, articula-se ao sabor do enredo num sopro de naturalidade, de aventura em detrimento da contensão e autocensura.
Quando eu nasci,
ficou tudo como estava, Nem homens cortaram veias, nem o Sol escureceu, nem houve Estrelas a mais... Somente, esquecida das dores, a minha Mãe sorriu e agradeceu. Quando eu nasci, não houve nada de novo senão eu. As nuvens não se espantaram, não enlouqueceu ninguém... P'ra que o dia fosse enorme, bastava toda a ternura que olhava nos olhos de minha Mãe...
José Régio é o pseudônimo de José Maria dos Reis Pereira, nascido no dia 17 de Novembro de 1901 em Vila do Conde, distrito do Porto.
A literatura em Portugal e na África tem apresentado autores inovadores, seja pela formalidade da escrita, seja pelas histórias surpreendentes. O maior destaque e José Saramago (1922), primeiro escritor de língua portuguesa a ganhar o premio Nobel de Literatura.
José de Sousa Saramago, escritor de Memorial do convento (1982), era autodidata. Buscava a oralidade, mesclando a voz do narrador com a dos personagens; pontuação não-tradicional, diálogos sem o tradicional travessão para indicar a fala de um personagem e uso extensivo da vírgula para aproximar sua escrita com a oralidade da língua.
Porém, outros autores têm ganhado notoriedade, produzindo literaturas premiadas como António Lobo Antunes (1942), com temática interessante e formal, e imagens poéticas surpreendentes. Outro nome de destaque é Miguel Torga (1907-1995) e José Cardoso Pires (1925-1998), ficcionistas experientes e de prestígio, embora pouco analisados e José Luis Peixoto (1974) e lídia Jorge (1946), representantes de uma nova geração de escritores portugueses.
Os vários caminhos da modernidade
Há também escritores contemporâneos africanos de destaque na ficção em língua portuguesa, sobretudo de Angola e Moçambique. Países que sofrem guerras civis e dolorosos processos de libertação. Apesar de tudo, conta com ficcionistas de primeira linha como Mia Couto (1955), Agualusa (1960), Luandino Vieira (1935) e Pepetela (1941).
Depois da metade do século XX, a literatura portuguesa continuou se enriquecendo e renovando. Ao lado de autores consagrados, surgem novos valores que vão contribuindo para a formação de um rico patrimônio literário no campo do romance, do conto e da poesia. Dentre os escritores importantes que surgiram ou se firmaram na segunda metade do século XX (alguns já citados acima), podemos citar Sofia de Melo Breyner Andresen, José Cardoso Pires, Urbano Tavares Rodrigues, Agustina Bessa-Luis, José Rodrigues Miguéis, Irene Lisboa, Isabel da Nóbrega, Maria Judite de Carvalho, David Mourão Ferreira, Augusto Abelaira, Antunes da Silva, José Saramago, Lobo Antunes, Herberto Helder, Almeida Faria, entre outros.
Florbela de Alma da Conceição Espanca nasceu em Vila Viçosa (Alentejo), em 8 de dezembro de 1894. Em Évora, faz estudos secundários e escreve poemas reunidos postumamente no volume Juvenília (1931). Casa-se então e é infeliz. Vai para Lisboa estudar Direito (1919). Nesse mesmo ano, publica seu primeiro livro de poemas, o Livro de Mágoas, que não provoca maior interesse por parte da crítica. Um segundo volume, o Livro de Sóror Saudade ( 1923), também passa despercebido. Separa-se do marido e tenta debalde uma nova experiência matrimonial. Deprimida, desiludida e doente, retira-se do convívio social e entra a cultivar os raros amigos que lhe restam; mal colabora em jornais ou revistas, com breves composições. Recolhe-se a Matosinhos, em busca de melhora, alentada agora por um novo casamento com um homem à altura do seu talento. Mas é tarde: na noite de 7 para 8 de dezembro de 1930, falece naquela cidade, enquanto dorme profundamente graças à ingestão excessiva de barbitúricos. Suicídio? Acidente? Não se sabe o certo.
" Foi uma sonetista com laivos anterianos e de António Nobre, é uma das mais notáveis personalidades líricas isoladas, pela intensidade de um emotivo erotismo feminino, sem precedentes entre nós, com tonalidades ora egotistas ora de uma sublimada abnegação que ainda lembra Sóror Miranda, ora de uma expansão de amor intenso e instável visando Deus através dos homens, que se vai casar com a ardência da charneca natal. Em 1978, tinham saído 23 edições dos Sonetos Completos, além de contos onde domina a figura do irmão, que morreu como aviador; precede, portanto, de longe e estimula um mais recente movimento de emancipação literária da mulher, exprimindo nos seus acentos mais patéticos a imensa frustração feminina de nossas opressivas tradições patriarcais.
( crítica de António José Saraiva em História da Literatura Portuguesa)
Não ser
Ah! arrancar às carnes laceradas Seu mísero segredo de consciência! Ah! poder ser apenas florescência De astros em puras noites deslumbradas!
Ser nostálgico choupo ao entardecer, De ramos graves, plácidos, absortos Na mágica tarefa de viver! ...
Quem nos deu asas para andar de rastos? Quem nos deu olhos para ver os astros - Sem nos dar braços para os alcançar?!...
Em ti o meu olhar fez-se alvorada, E a minha voz fez-se gorgeio de ninho, E a minha rubra boca apaixonada Teve a frescura do linho
Aqueles que me têm muito amor Não sabem o que sinto e o que sou... Não sabem que passou, um dia, a Dor À minha porta e, nesse dia, entrou. E é desde então que eu sinto este pavor, Este frio que anda em mim, e que gelou O que de bom me deu Nosso Senhor! Se eu nem sei por onde ando e onde vou!!
Sinto os passos de Dor, essa cadência Que é já tortura infinda, que é demência! Que é já vontade doida de gritar!
E é sempre a mesma mágoa, o mesmo tédio, A mesma angústia funda, sem remédio, Andando atrás de mim, sem me largar!
Os versos que te fiz
Deixe dizer-te os lindos versos raros Que a minha boca tem pra te dizer ! São talhados em mármore de Paros Cinzelados por mim pra te oferecer.
Tem dolencia de veludo caros, São como sedas pálidas a arder... Deixa dizer-te os lindos versos raros Que foram feitos pra te endoidecer !
Mas, meu Amor, eu não te digo ainda... Que a boca da mulher é sempre linda Se dentro guarda um verso que não diz !
Amo-te tanto ! E nunca te beijei... E nesse beijo, Amor, que eu te não dei Guardo os versos mais lindos que te fiz.
Beija-mas bem!... Que fantasia louca Guardar assim, fechados, nestas mãos, Os beijos que sonhei pra minha boca!...
Ser poeta é ser mais alto, é ser maior
Ser poeta é ser mais alto, é ser maior Do que os homens! Morder como quem beija! É ser mendigo e dar como quem seja Rei do Reino de Aquém e de Além Dor!
É ter de mil desejos o esplendor E não saber sequer que se deseja! É ter cá dentro um astro que flameja, É ter garras e asas de condor!
É ter fome, é ter sede de Infinito! Por elmo, as manhãs de oiro e de cetim... É condensar o mundo num só grito!
E é amar-te, assim, perdidamente... É seres alma, e sangue, e vida em mim E dizê-lo cantando a toda a gente!
Fumo
Longe de ti são ermos os caminhos, Longe de ti não há luar nem rosas; Longe de ti há noites silenciosas, Há dias sem calor, beirais sem ninhos!
Languidez
Fecho as pálpebras roxas, quase pretas, Que poisam sobre duas violetas, Asas leves cansadas de voar...
E a minha boca tem uns beijos mudos... E as minhas mãos, uns pálidos veludos, Traçam gestos de sonho pelo ar...
Fanatismo
Minh'alma, de sonhar-te, anda perdida. Meus olhos andam cegos de te ver! Não és sequer razão do meu viver Pois que tu és já toda a minha vida! ...
E, olhos postos em ti, digo de rastros: «Ah! Podem voar mundos, morrer astros, Que tu és como Deus: Princípio e Fim!...»
O nosso mundo
Que importa o mundo e as ilusões defuntas?... Que importa o mundo seus orgulhos vãos?... O mundo, Amor?... As nossas bocas juntas!..
No início do séc. XX as revistas culturais foram o principal meio de divulgação das transfor-mações sofridas pela arte. No ano de 1910 surgiu, em Portugal, a revista mensal "A Águia", dirigida por Teixeira Pascoaes. O objetivo dessa revista era ressuscitar a Pátria Portuguesa a partir do saudosismo, ou seja, por uma espécie de retomada das tradições do País.
O período em que a revista "A Águia" circulou é conhecido também como Saudosismo. Por ser um momento de transição, uma vez que em 1915 surge a revista "Orpheu", marco inicial do Modernismo português, esse período também pode ser classificado como Pré-Modernismo.
O Modernismo em Portugal é difícil de ser estruturado. Alguns estudiosos dividem-no em dois, três e até mesmo em quatro momentos. Quanto ao primeiro e segundo momentos não há divergências entre esses estudiosos, mas as duas outras fases geram muitas controvérsias.
Após muita pesquisa, optou-se em dividir o período Modernista português em duas partes: Primeiro Momento ou Orphismo e Segundo Momento ou Presencismo. As duas outras fases são classificadas como Neo-realismo e Surrealismo.
Isto justifica-se porque os escritores da fase Neo-realista repudiam a literatura psicológica e propõem uma literatura de caráter social, muito próxima à praticada pelos autores Realistas. Já os escritores da fase Surrealista são influenciados pelas teorias de Andre Breton, idealizador do Surrealismo.
Devido a todas estas circunstâncias, o ano de 1940, quando o grupo da Presença se desintegrou, é considerado o término do período Modernista em Portugal.
O MODERNISMO em Portugal tem início oficial no ano de 1915, quando um grupo de escritores e artistas plásticos lança o primeiro número da "Orpheu", revista trimestral de literatura. Esse grupo é composto por Mário de Sá-Carneiro, Raul Leal, Luís de Montalvor, Almada Negreiros o brasileiro Ronald de Carvalho e, entre outros, o fantástico e polêmico, Fernando Pessoa e seus heterônimos (Álvaro de Campos, Ricardo Reis, Alberto Caeiro).
Segundo Luís de Moltalvor, Orpheu "é um exílio de temperamentos de arte que a querem como a um segredo ou tormento". Ainda conforme Moltalvor, a pretensão dos integrantes da Orpheu "é formar, em grupo ou ideia, um número escolhido de revelações em pensamento ou arte, que sobre este princípio aristocrático tenham em Orfeu o seu ideal esotérico e bem nosso de nos sentirmos e conhecermos".
Esses jovens artistas, também conhecidos como Orfistas, foram influenciados pelo Futurismo de Marinetti; pelo Institucionalismo de Henri Bérgson, cuja linha de pensamento só admitia o conhecimento natural e espontâneo e dizia não à ciência e à técnica; e pelos ensinamentos de Martin Heidegger, que colocava a existência individual como determinação do próprio indivíduo e não como uma determinação social.
Os objetivos principais dos orfistas eram:
- Chocar a burguesia com sua obra irreverente (poesias sem metro, exaltando a modernidade);
- Tirar Portugal de seu descompasso com a vanguarda do resto da Europa.
Logo no primeiro número, publicado em Abril de 1915, os orfistas conseguiram criar o ambiente de escândalo desejado, graças a críticas violentas, que podem ser encontradas nos poemas "Ode triunfal" de Álvaro de Campos (Heterônimo de Fernando Pessoa) e "Manucure" de Mário de Sá-Carneiro.
Esse primeiro número esgotou-se em apenas três semanas graças a um sucesso "negativo": as pessoas que compravam a revista ficavam horrorizadas e despejavam sua ira contra os seus colaboradores.
Armando Cortes Rodrigues, um dos membros da Orpheu, conta que os orfistas eram constantemente ironizados e chamados de loucos.
O segundo e último número da revista Orpheu foi lançado em Julho de 1915, com conteúdos bem mais futuristas. O terceiro número chegou a ser planejado, mas não foi editado por causa do suicídio de Mário de Sá-Carneiro, responsável pelos custos da revista.
Essa primeira geração Modernista, surgida no meio da Primeira Guerra Mundial, foi nitidamente influenciada pelos vários manifestos de vanguarda europeus. Esse talvez seja o
motivo principal dos autores desse período apresentarem individualidades muito fortes e não seguirem um padrão estético linear.
Apesar do precoce desaparecimento da "Orpheu", a revista deixou uma rica herança, uma vez que surgiram várias outras revistas que, a grosso modo, foram seguidoras do orphismo e que tiveram duração efêmera, ou seja, duraram pouco. Foram elas: Centauro (1916); Exílio (1916); Ícaro (1917);
Portugal Futurista (1917)
Ainda nesse primeiro momento do Modernismo português surgiram as figuras de Aquilino Ribeiro e Florbela Espanca. Nomes de destaque na literatura portuguesa, que não tiveram ligação com nenhum dos momentos modernistas. Para o professor de Literatura Portuguesa
Massaud Moisés esses dois poetas são enquadrados em um momento literário que classifica como "Interregno".
O segundo momento Modernista surgiu da herança deixada pelo orphismo. A revista literária "Presença", que teve o primeiro exemplar publicado em 10/03/1927, foi o meio divulgador das ideias desse grupo, também conhecido como presencismo.
A revista Presença foi fundada e editada por Branquinho da Fonseca. Em 1930, quando a revista já estava no número 27, Branquinho da Fonseca, por considerar haver imposição de limites à liberdade criativa, abandona a direção da revista, que fica a cargo de Adolfo Casais Monteiro.
Dentre os seus principais colaboradores destacam-se as figuras de José Régio, Adolfo Rocha, João Gaspar Simões, Miguel Torga, Irene Lisboa, entre outros.
Além de dar continuidade às ideias do orphismo e de eleger os membros desse período como "mestres", os presencistas pregavam uma literatura mais intimista e artística.
Isso quer dizer que a literatura defendida por esse grupo estava voltada para uma análise interior e para a introspecção.
Por causa dessas posturas os presencistas tiveram algumas dissidências e receberam muitas críticas, baseadas nos exageros do individualismo e do esteticismo.
A revista Presença foi, em Portugal, o principal veículo divulgador das principais obras e escritores europeus da primeira metade do século. Além disso destaca-se ainda o espírito crítico de seus fundadores e de alguns de seus colaboradores. Graças a esse espírito, muitos estudiosos consideram o Presencismo como um movimento mais crítico do que criador.
No ano de 1940, em plena Segunda Guerra Mundial, o grupo presencista encerra suas atividades. Encerrando também o Modernismo em Portugal.
Para alguns estudiosos, o Modernismo português ainda teve mais uma ou até duas fases, que são aqui classificadas como Neo-realismo e Surrealismo.
“Fernando Reis de Campos Caeiro Pessoa”
Grande poeta português e mundial, enigmático e inigualável. Um verdadeiro mestre, um artista em mistério, dono de uma das obras mais significativas já escritas na língua portuguesa. Vivenciou os primórdios do modernismo, era um observador, demonstrava interesse em entender o mundo a sua volta, estudou astrologia e ocultismo, foi um transformador, ele rompeu com as tradições e aderiu ao que tinha de mais moderno pra época.
Vivenciou momentos em que sensações como a inquietude e a angustia reinavam na Europa e no mundo em razão da guerra mundial. E ao contrário de seu amigo Sá-Carneiro que ao alcançar o auge de suas produções literárias suicida-se, por não ter um suporte, algo mais que o satisfaça, em face da realidade, Pessoa foge desta linha de raciocínio, e é salvo pelo seu bem maior em vida “A Literatura”. Para Pessoa, a arte era escrever, filosofar, porém não só pensar, era preciso sentir, ser tudo e todos para então compreender o mundo.
Apesar de ter cursado Filosofia e abandonado o curso antes de concluí-lo, o poeta se assemelha a um filósofo pelo seu intelectualismo profundo, mas o diferencia deste, pois os seus conhecimentos de mundo são baseados em emoções, até porque nunca saiu de Lisboa após sua chegada definitiva de Durban, em 1905, com 17anos.
Pelas poesias a sua maneira, se tornou singular na Literatura Portuguesa, com estilos diferenciados, multi-divididos e muita criatividade seu destaque realmente está em suas poesias pela questão da heteronímia, entre o ser e não Pessoa. “O poeta é um fingidor” assim ele o disse, e demonstrou-o em suas criações literárias.
“O ponto central da minha personalidade como artista é que sou um poeta dramático; tenho continuamente, em tudo quanto escrevo, a exaltação íntima do poeta e a despersonalização do dramaturgo. Vôo outro- eis tudo” .
Biografia
Nasceu em Lisboa, a 13 de junho de 1888. Foi educado em Durban, e ali se tornou bilíngue. Retornou definitivamente a Portugal, em 1905. Cursou Letras por um período breve (1906-1907). Foi tradutor de Inglês e Francês (profissão). Morou em quartos de pensões e aluguéis. Tentou abrir uma tipografia, mas sem sucesso, em 1907. Estudou filosofia (grega e alemã), ciências humanas e políticas, teosofia e literatura moderna.
Em 1912, conheceu Mário Sá-Carneiro de quem se tornou grande amigo. No ano 1916, o amigo Sá-Carneiro anunciou por carta, que iria suicidar-se. Pessoa recebeu a última carta do amigo em 18 de abril. Em 1920, namora Ophélia Queiroz (interrompido nesse mesmo ano e retoma para definitivamente terminar, em 1929). E neste ano escreve cartas de amor.
Em 1930, troca correspondências com o mago inglês Aleister Crowley, em setembro tem a visita do mago, que desaparece em circuntâncias misteriosas. E meses depois Pessoa dá depoimento no “Notícias Ilustrado” sobre o desaparecimento.
Em 1933, passou por uma grave crise de neurastemia. Faleceu em 30 de novembro de 1935, vitimado por cólica hepática.
Influências Literárias
Grandes nomes destacam-se entre eles, os portugueses: Padre Antonio Vieira, pregador português do estilo barroco conceptista, com a obra Os Sermões, que desempenhou um papel determinante na vida de Pessoa, em sua “naturalização” como português, e Cesário Verde, escritor realista, cujas poesias retratam o cotidiano. Lia autores ingleses especialmente Milton, e autores franceses como Baudelaire. Outra forte de influência na vida de Pessoa foi Teixeira Pascoaes, escritor nacionalista e visionário da revista A Águia, fundada em 1910, revista que Fernando atuou como colaborador.
Vida Literária
Despertou o dom de escrever muito cedo, mas inicia-se na vida literária portuguesa ao discutir literatura nos bares e cafés, e concomitantemente com o movimento saudosista de resgate aos valores portugueses.
Fernando escreve poesias em inglês em 1901.
Em 1904, ganha o prêmio Rainha Vitória, ensaio de inglês.
Participantes: Elaine Bossoni, Emile Farias, Fátima Almeida, Joelma Almeida, Marizete Romano e Raquel Amorim.
O período que vai de 1890 a 1915 é marcado por inúmeras tendências literárias e filosóficas, representando, no geral, a superação das teses centrais divulgadas pela geração de 70. Aliás, muitos autores realistas já não endossam mais aquelas idéias radicais, como se pode ver pelo modo como Antero de Quental e Eça de Queirós, por exemplo, revêem suas posições intelectuais.
Durante o século XIX a Europa era, em quase sua totalidade, Imperialista. A Europa estava em pleno expansionismo em direção aos países da África, Ásia e América Latina. E em pouco tempo, 3/5 das terras do globo passaram para o domínio europeu. E, nesta mesma época, havia a política das alianças, liderada pela Inglaterra de um lado e pela Alemanha do outro. E em função disto, a Europa começou a investir no crescimento bélico de suas nações, estando eles às vésperas da primeira guerra mundial. Para essa crescente militarização, os historiadores dão o nome de "Paz Armada". Esse era o contexto histórico onde nasceu o Simbolismo.
Origem e conceito
Com início na França o Simbolismo, ocorreu entre o fim do século XIX e início do século XX, manifestando-se principalmente no satanismo e no spleen de As Flores do Mal, do poeta Charles Baudelaire. Baudelaire fora tão importante para o início do simbolismo que alguns estudiosos apontam Edgar Allan Poe como precursor desse movimento, por ter influenciado as obras do autor. Além do estilo Baudelaire destacou-se também: o mistério e a destruição da linguagem linear de Um lance de Dados e de Tardes de um Fauno de Stéphane Mallarmé; o marginalismo de Outrora e Agora, de Paul Verlaine e o amoralismo de Uma Temporada no Inferno, de Jean Nicolas Rimbaud.
Charles Baudelaire: principal representante do simbolismo na literatura
O Simbolismo é uma tendência literária da poesia e outras artes, contemporâneo ao Parnasianismo e, por vários aspectos, ligado ao romantismo. A escola surgiu como oposição ao Realismo, ao Naturalismo e ao Positivismo devido aos escritores passarem a considerar que os procedimentos destas escolas não conseguiam expressar completamente o que acontecia com o homem e a Natureza.
O simbolismo é compreendido porque está inscrito no contexto sócio-cultural decorrente da Revolução Francesa e de algumas doutrinas romântico-liberais. Os autores simbolistas buscam expressar o “eu”, ou seja, procuram expressar o que sentem explorando-os a si mesmo, tentando buscar a intimidade de cada um, mostrando isso através de recursos como: as vivências, a lógica, o sonho a alucinação ou a psicanálise, ultrapassando assim, os românticos.
Marcadamente individualista e místico, foi com desdém apelidado de "decadentismo" - clara alusão à decadência dos valores estéticos então vigentes e a uma certa afetação que neles deixava a sua marca. Em 1886 um manifesto trouxe a denominação que viria marcar definitivamente os adeptos desta corrente: simbolismo.
CARACTERÍSTICAS DO SIMBOLISMO
Misticismo e espiritualismo – A fuga da realidade leva o poeta simbolista ao mundo espiritual. É uma viagem ao mundo invisível e impalpável do ser humano. Uso de vocabulário litúrgico: antífona, missal, ladainha, hinos, breviários, turíbulos, aras, incensos.
Falta de clareza – Os poetas achavam que era mais importante sugerir elementos da realidade, sem delineá-los totalmente. A palavra é empregada para ter valor sonoro, não importando muito o significado.
Subjetivismo – A valorização do “eu” e da “irrealidade”, negada pelos parnasianos, volta a ter importância.
Os simbolistas terão maior interesse pelo particular e individual do que pela visão mais geral. A visão objetiva da realidade não desperta mais interesse, e sim está focalizada sob o ponto de vista de um único indivíduo. Dessa forma, é uma poesia que se opõe à poética parnasiana e se reaproxima da estética romântica, porém mais do que voltar-se para o coração, os simbolistas procuram o mais profundo do "eu", buscam o inconsciente, o sonho.
Musicalidade – A musicalidade é uma das características mais destacadas da estética simbolista. Para conseguir aproximação da poesia com a música, os simbolistas lançaram mão de alguns recursos, como por exemplo a aliteração, que consiste na repetição sistemática de um mesmo fonema consonantal, e a assonância, caracterizada pela repetição de fonemas vocálicos:
Aliteração – Repetição seqüencial de sons consonantais. A seqüência de palavras com sons parecidos faz que o leitor menospreze o sentido das palavras para absorver-lhes a sonoridade. É o que ocorre nos versos seguintes, de Cruz e Sousa (poeta brasileiro):
Vozes veladas, veludosas vozes,
Volúpia dos violões, vozes veladas,
Vagam nos velhos vórtices velozes,
Dos ventos, vivas, vãs, vulcanizadas.
(Violões que Choram)
Assonância – É a semelhança de sons entre vogais de palavras de um poema.
Sinestesia – Os poetas, tentando ir além dos significados usuais das palavras, terminam atribuindo qualidade às sensações. As construções parecem absurdas e só ganham sentido dentro de um contexto poético. Vejamos algumas construções sinestésicas: som vermelho, dor amarela, doçura quente, silêncio côncavo.
Maiúsculas no meio do verso – Os poetas tentam destacar palavras grafando-as com letra maiúscula.
Transcendentalismo
Um dos princípios básicos dos simbolistas era sugerir através das palavras sem nomear objetivamente os elementos da realidade. Ênfase no imaginário e na fantasia. Para interpretar a realidade, os simbolistas se valem da intuição e não da razão ou da lógica. Preferem o vago, o indefinido ou impreciso. O fato de preferirem as palavras névoa, neblina, e palavras do genêro, transmite a idéia de uma Obsessão pelo branco (outra característica do simbolismo)
Cor branca – Principalmente Cruz e Sousa, poeta do simbolismo brasileiro, tinha preferência por brancuras e transparências.
O Simbolismo em Portugal
Com a publicação de Oaristos, de Eugenio de Castro, em 1890, inicia-se oficialmente o Simbolismo português, durando até 1915, época do surgimento da geração Orpheu, que desencadeia a revolução modernista no país, em muitos aspectos baseada nas conquistas da nova estética.
Conhecidos como adeptos do Nefelibatismo (espécie de adaptação portuguesa do Decadentismo e do Simbolismo francês), e, portanto como nefelibatas (pessoas que andam com a cabeça nas nuvens), os poetas simbolistas portugueses vivenciam um momento múltiplo e vário, de intensa agitação social, política, cultural e artística. Com o episódio do Ultimatum inglês, aceleram-se as manifestações nacionalistas e republicanas, que culminarão com a proclamação da República, em 1910.
Portanto, os principais autores desse estilo em Portugal seguem linhas diversas, que vão do esteticismo de Eugênio de Castro ao nacionalismo de Antônio Nobre ou a prosa simbolista de Raul Brandão, até atingirem maioridade estilística com Camilo Pessanha: o mais importante poeta simbolista português.
Camilo Almeida Pessanha (Coimbra, 7 de Setembro de 1867 — Macau, 1 de Março de 1926) foi um poeta português, considerado o expoente máximo do Simbolismo em língua portuguesa, além de antecipador do princípio modernista da fragmentação[1].
Vida
Tirou o curso de Direito em Coimbra. Em 1894, transferiu-se para Macau, onde, durante três anos, foi professor de Filosofia Elementar no Liceu de Macau, deixando de leccionar por ter sido nomeado em 1900 conservador do registro predial em Macau e depois juiz de comarca. Entre 1894 e 1915 voltou a Portugal algumas vezes, para tratamento de saúde, tendo, numa delas sido apresentado a Fernando Pessoa que era, como Mário de Sá-Carneiro, grande apreciador da sua poesia.
Publicou poemas em várias revistas e jornais, mas seu único livro Clepsidra (1920), foi publicado sem a sua participação (pois se encontrava em Macau) por Ana de Castro Osório, a partir de autógrafos e recortes de jornais. Graças a essa iniciativa, os versos de Pessanha se salvaram do esquecimento. Posteriormente, o filho de Ana de Castro Osório, João de Castro Osório, ampliou a Clepsidra original, acrescentando-lhe poemas que foram encontrados. Essas edições saíram em 1945, 1954 e 1969.
Apesar da pequena dimensão da sua obra, é considerado um dos poetas mais importantes da língua portuguesa. Camilo Pessanha morreu no dia 1 de Março de 1926 em Macau.
Características estéticas
Além das características simbolistas que sua obra assume, já bem conhecidas, Camilo Pessanha antecipa alguns princípios de tendências modernistas.
Camilo Pessanha buscou em Charles Baudelaire, proto-simbolista francês, o termo “Clepsidra”, que elegeu como título do seu único livro de poemas, praticando uma poética da sugestão como propsta por Mallarmé, evitando nomear um objeto direta e imediatamente.
Por outro lado, segundo o pesquisador da Universidade do Porto Luís Adriano Carlos, o seu chamado "metaforismo" entraria no mesmo rol estético do imagismo, do inteseccionismo e do surrealismo, buscando as relações analógicas entre significante e significado por intermédio da clivagem dinâmica dos dois planos.
Junto de sua fragmentação sintática, que segundo a pesquisadora da Universidade do Minho Maria do Carmo Pinheiro Mendes substitui um mundo ordenado segundo leis universalmente reconhecidas por um mundo fundado sobre a ambiguidade, a transitoriedade e a fragmentação, podemos encontrar na obra de Camilo Pessanha, de acordo com os dois autores citados, duas características que costumam ser mais relacionadas à poesia moderna que ao Simbolismo mais convencional.
Componentes: Antonio Macedo - Denis Bottoni - Ivo Leonardo - Roberto Rocha
A segunda metade do século XIX se caracteriza pela consolidação do poder da burguesia e pelo crescimento do proletariado.
Enquanto a burguesia luta pelo dinheiro, os operários fabris, insatisfeitos com a condição de vida, destroem máquinas e promovem os primeiros movimentos grevistas, criando os sindicatos. Nesse momento, a ciência deve servir de forma objetiva ao progresso industrial e este desenvolvimento científico fez com que o idealismo e o tradicionalismo fossem substituídos pelo materialismo e racionalismo. O método científico passou a ser o meio de análise e compreensão da realidade.
Dessa feita, algumas teorias deram fundamento ideológico à literatura do realismo- naturalismo. São Elas: Determinismo, Darwinismo e Positivismo.
O INÍCIO DO REALISMO MUNDIAL
O Realismo é de origem francesa e suas primeiras manifestações de grande importância datam de 1850 e 1853, anos em que, respectivamente, Gustave Coubert (1819-1877) expôs duas de suas escandalosamente celebres telas realistas: Enterro em Ornans e As Banhistas. Independente, revoltado contra a pintura imaginativa do Romantismo, procurando nos seus quadros “traduzir os costumes, as idéias, o aspecto de sua época, fazer a arte atual”, Coubert realiza em 1855, como represália por ter sido parcialmente recusado na exposição Universal de Paris, uma exposição de quarenta e uma tela intituladas O Realismo nome que denomina o novo movimento artístico na segunda metade do século XIX.
REALISMO: MOVIMENTO ARTÍSTICO
Caracteriza-se pela intenção de uma abordagem objetiva da realidade e pelo interesse por temas sociais. O engajamento ideológico faz com que muitas vezes a forma e as situações descritas sejam exageradas para reforçar a denúncia social. O Realismo representa uma reação ao subjetivismo romântico. Sua radicalização rumo ao cientificismo leva ao Naturalismo.
O Realismo retrata o homem interagindo com seu meio social, enquanto o Naturalismo mostra o homem comoprodutode “ leis naturais”, desenvolve temas voltados para a análise do comportamento patológico do homem, de suas taras sexuais, de seu lado animalesco.
CONTEXTO HISTÓRICO DO REALISMO EM PORTUGAL
O Realismo em Portugal teve como marco inicial a Questão Coimbrã (1865) e entrou em decadência em 1890, terminando em 1900 com a morte de Eça de Queirós.
O que foi a Questão Coimbrã?
Foi uma polêmica travada pelos jornais portugueses em 1865. Tudo teve início quando o poeta romântico Castilho, ao elogiar Pinheiro Chagas, “agrediu” o estilo poético da escola coimbrã, citando os nomes de Antero de Quental e Teófilo Braga. Como resposta Antero de Quental publicou folhetos denominados Bom senso e bom gosto, e logo se formaram grupos partidários de um lado e de outro; Tradição X Revolução.
Esta situação só foi resolvida em 1871, pois foram feitas várias conferências públicas, as Conferências Democráticas do Cassino Lisbonense, que pretendiam que Portugal se atualizasse junto ao resto da Europa. Com o fim dessas conferências os revolucionários ganham notoriedade e iniciam o Realismo português .
Veja abaixo um vídeo que explicará com clareza as características deste movimento artístico:
Veja abaixo vídeo sobre a Trilogia de Eça de Queirós:
No O Primo Basílio, as personagens tem mais independência, autenticidade e mais verdade psicológica do que em qualquer dos outros romances, a sua galeria de tipos divide-se entre os que estimamos, os que detestamos, os que são grotescos e os que inspiram perdão e piedade.
Fontes: A literatura portuguesa de Massaud Moisés
Gramática: Língua Portuguesa Total da Editora Didática Paulista